Seção "Léxico" para o Nexo Jornal

Entre 2017 e 2019, mantive uma seção semanal só sobre palavras no jornal Nexo; foram oitenta colunas como estas daqui:
Coragem —
“Coragem” vem do coração, “covardia" vem do rabo. É assim no latim. “Covarde" remonta a “cauda" ou “coda" (passando pelo francês antigo “couard”): o covarde é aquele que sai com o rabo entre as pernas.
Já o corajoso age (ou fala, ou pensa) de acordo com o coração, “cor” em latim. Em 1974, a empresa japonesa Sanrio criou uma personagem de uma gata que parece uma pessoa, mas que não tem boca. Explicaram que é porque “ela fala com o coração” – Hello Kitty, corajosa.
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Mulher —
Durante muito tempo se acreditou que o latim “mulier” vinha de “mollis”, o que faria das mulheres criaturas “macias”, “moles” e “molhadas”, praticamente “moluscos”. A falsa etimologia foi aceita por séculos: aparece, por exemplo, nas “Etimologias”, de Isidoro de Sevilha, do século 7, e numa peça de William Shakespeare, dez séculos depois.
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É muito fácil fazer uma palavra virar do avesso: basta casá-la com um prefixo negativo e ela é obrigada a sair por aí com seu sentido ao contrário. Pegue “esperança” e junte com “des-”: “desesperança”. Ou faça o “responsável” ficar “irresponsável”, o “justo" virar “injusto”. Na maior parte dos casos, as palavras não têm como se defender.
Na maior parte dos casos — isto é, não em todos. Às vezes, pode-se tentar fazer isso com uma palavra, mas o que acontece é que ela vira outra coisa, escapa por um terceiro caminho. É o caso de “indiferente”. No sentido mais usual da palavra, dizer que alguém está “indiferente” numa dada situação não é dizer que ela está “o contrário de diferente”. Ela está, na verdade, o contrário de “apaixonada”, de “comovida”, “indignada”, e por aí vai. E, do outro lado, o contrário de “diferente” é simplesmente “igual” (mas “desigual”, por sua vez, também é outra coisa).
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