Resenha de "Nunca acontece nada na minha rua", de Ellen Raskin, para Quatro cinco um

"O livro não diz, mas desconfio que Luís Rodolfo seja uma criança que gosta de ler. Por que outro motivo ele estaria sempre sozinho, melancólico, alheio ao que acontece ao seu redor e — o mais importante — por que se entregaria tão facilmente ao próprio universo mental? Sentado na calçada, a cabeça pesando sobre os ombros, ele se ocupa unicamente com o ato de fantasiar. Luís Rodolfo não acha graça nas outras crianças, como não se interessa pelo gato laranja que mia ao seu lado, nem pela briga da vizinha com o carteiro na soleira da porta. Só quer saber de monstros, astronautas, espiões, leões, tigres e piratas. Nem ao menos percebe quando uma árvore às suas costas cresce e dá frutos, quando um ladrão é perseguido (e pego) pela polícia, quando uma bruxa aparece atrás de uma janela e depois de outra, e outra; quando um paraquedista pousa na sua frente, quando tudo dá errado, quando tudo dá mais errado ainda, quando tudo dá certo, quando a chuva cai."
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Homenagem a Philip Roth após sua morte, para Quatro cinco um

Os personagens que Philip Roth inventou são quase invariavelmente uns sem amigos. Seguem suas vidas sozinhos, pensando e pensando e pensando. É como se estivessem sempre conversando consigo mesmos e, de tanto darem ouvidos às suas ideias, acabam se convencendo de que o ruído que suas mentes produz coincide, de fato, com os sons do mundo. Os romances podem ser longos, pouco importa: esses homens continuam ensimesmados até o momento em que o mundo desaba — num romance de Philip Roth, ele está sempre prestes a desabar — e só então eles param e olham em volta e se perguntam como foi possível uma coisa dessas acontecer, e logo agora, e logo com eles. No mais, quando estão diante de outras pessoas, muito rapidamente param de ouvir o que elas dizem; veem uma boca se mexendo, mas só isso. O próprio cinema mental lhes basta.  
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Resenha de "Viagem sentimental", de Viktor Chklóvski, para Quatro cinco um

“Só há duas maneiras de se viver: ou você escreve para si mesmo enquanto ganha dinheiro com alguma outra ocupação, ou se tranca em casa e contempla o sentido da existência. Não há uma terceira via. Eu escolhi a terceira via.” É verdade — em que outro lugar Viktor Chklóvski teria vivido, senão numa terceira via, a inexistente? 
O mundo em que ele nasceu foi a Rússia do final do século 19, a Rússia de Tolstói e dos czares. Viveu a Primeira Guerra Mundial e a Revolução de 1917. Reinventou-se muitas vezes e morreu em 1984, aos 91 anos, num mundo muito diferente daquele onde tinha nascido — e, projetando-se ainda além, disse que amava o futuro, e que era sempre preciso amar o futuro.
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Resenha de "Viagem ao Volga", de Ibn Fadlan

Há livros que fazem o mundo parecer maior. O horizonte se alarga quando lemos histórias de aventuras, relatos de viagens a lugares distantes, biografias de pessoas curiosas. Não são muitas as obras que provocam esse efeito — mas as que o fazem parecem oferecer para o leitor adulto o mais próximo que se pode ter da experiência de ler livros na infância.
"Viagem ao Volga", escrito em árabe por um homem que viveu há mais de mil anos, pertence a essa categoria: a obra aumenta o mundo ao nosso redor: dá mais esperança às nossas experiências.
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